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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Parte 3 – Lira IX
Chegou-se o dia mais triste
que o dia da morte feia;
caí do trono, Dircéia,
do trono dos braços teus,
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Ímpio Fado, que não pôde
os doces laços quebrar-me,
por vingança quer levar-me
distante dos olhos teus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Parto, enfim, e vou sem ver-te,
que neste fatal instante
há de ser o teu semblante
mui funesto aos olhos meus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
E crês, Dircéia, que devem
ver meus olhos penduradas
tristes lágrimas salgadas
correrem dos olhos teus?
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
De teus olhos engraçados,
que puderam, piedosos,
de tristes em venturosos
converter os dias meus?
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Desses teus olhos divinos,
que, terno e sossegados,
enchem de flores os prados
enchem de luzes os céus?
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Destes teus olhos, enfim,
que domam tigres valentes,
que nem rígidas serpentes
resistem aos tiros seus?
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Da maneira que seriam
em não ver-te criminosos,
enquanto foram ditosos,
agora seriam réus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Parto, enfim, Dircéia bela,
rasgando os ares cinzentos;
virão nas asas dos ventos
buscar-te os suspiros meus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Talvez, Dircéia adorada,
que os duros fados me neguem
a glória de que eles cheguem
aos ternos ouvidos teus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Mas se ditosos chegarem,
pois os solto a teu respeito,
dá-lhes abrigo no peito,
junta-os cos suspiros teus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
E quando tornar a ver-te,
ajuntando rosto a rosto,
entre os que dermos de gosto,
restitui-me então os meus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
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O autor repete várias vezes durante a lira que não pode ficar sem Doroteia, sua vida não é a mesma sem sua amada. Ele está prestes a perdê-la por conta da morte que está próxima. Apesar de ter chegado a hora de sua partida, ele não consegue se desfazer do que lhe fez tão bem. Ao longo da lira o personagem descreve com exuberância a sua amada e a gloria como se fosse uma deusa.

Nessa lira eu encontrei apenas uma característica do arcadismo, o carpe diem, que se trata da passagem do tempo como algo que trás a velhice, a fragilidade e a morte.

Não há presságios de que a terceira parte tenha ocorrido. Porém ela representa um futuro inalcançável, pois eles já não se encontram unidos. Apesar de tudo Dirceu não desiste de seu amor e acredita que ficarão juntos.

Glossário:

Ímpio – Que falta aos deveres de piedade.
Fado – Aquilo que tem de acontecer, independentemente da vontade humana.
Semblante – Aparência; aspecto; fisionomia.

Réus – Que tem má índole.


Amanda Silva Santana - Nº 03
1º E

3 comentários:

  1. Amanda, gostei muito da sua análise e da lira que você escolheu. Apesar de você não ter comentado, devo dizer que, na lira em si, adoro os momentos em que ele fala "Dircéia". É como se ele sonhasse com um casamento já concretizado. Particularmente, creio que seja uma das liras mais bonitas do livro. E sua análise também me ajudou na compreensão de coisas que ainda não havia entendido. Muito bom!

    Maria Carolina D'avilla - nº 28
    1º E

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  2. Esqueci-me disso. Nessa lira, Dirceu cita o nome "Dircéia" como se a união entre os dois já estivesse consumada, apesar de que o mesmo não mais acontecerá. Sua vontade e desejo de que estejam juntos é maior que todas as dificuldades impostas pelo destino.

    AMANDA SILVA SANTANA Nº3
    1ºE

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  3. Gostei de sua análise, percebo que Dirceu tem um apego muito grande por Marília a ponto de não esquecê-la.


    Daniella Úrsula de Macêdo Marques

    Nº06 1ºE

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