Páginas

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Lira XXII 
Muito embora, Marília, muito embora
Outra beleza, que não seja a tua,
Com avermelha roda, a seis puxada,
Faça tremer a rua.
As paredes da sala, aonde habita,
Adorne a seda, e o tremó dourado;
Pendam largas cortinas, penda o lustre
Do teto apainelado.
Tu não habitarás palácios grande,
Nem andarás no coches voadores;
Porém terás um Vate, que te preze,
Que cante os teus louvores.
O tempo não respeita a formosura;
E da pálida morte a mão tirana
Arrasa os edifícios dos Augustos,
E arrasa a vil choupana.
Que belezas, Marília, floresceram,
De quem nem sequer temos a memória!
Só podem conservar um nome eterno
Os versos, ou a história.
Se não houvesse Tasso, nem Petrarca,
Por mais que qualquer delas fosse linda,
Já não sabia o mundo, se existiram
Nem Laura, nem Clorinda.
É melhor, minha Bela, ser lembrada
Por quantos hão de vir sábios humanos,
Que ter urcos, ter coches, e tesouros,
Que morrem com os anos.
                   --------------------------------------------------------------------
Nessa lira, Gonzaga desvaloriza os bens materiais que se acabam com o passar dos anos. A forma que ele se expressa deixa transparecer o amor que sente por Marília e que essa é a única coisa que importa. Gonzaga, que valoriza posses e status em outros momentos, nesse poema ignora todos os bens e valoriza o conhecimento, mostrando que trocaria tudo pra viver uma vida simples com Marília.

Encontramos nessa lira várias características do arcadismo, como o bucolismo e pastoralismo na utilização do pseudônimo. Podemos ver também o resgate de temas clássicos como áurea mediocritas, que são coisas cotidianas, simples e pelo bom senso, e o locus amoenus, que é um lugar tranquilo e agradável.

Gonzaga escreve as liras pensando em sua amada Maria Doroteia. Nessa lira ele mostra simplicidade tentando conquistar através de palavras e conhecimento, e que para ser feliz basta estar com sua amada. Essa lira foi escrita antes de Gonzaga ser preso, assim como todas as da primeira parte.

Glossário:
Adornar: Enfeitar.
Tremó: Aparador com espelho alto, ou espelho colocado entre duas janelas.
Apainelado: Decorado de painéis, enfeitado ou cheio de painéis.
Coches: Veículo de quatro rodas puxado por animais.
Vate: Profeta, adivinho.
Tirana: Mulher má, cruel; mulher esquiva.
Vil: Canalha, infame, miserável.
Choupana: Casa pobre, coberta de palha ou sapê, nos países quentes; cabana, caluje, choça, palhoça.
Petrarca:  Corajoso, audaz.
Urcos: Cavalo forte e corpulento.

Amanda Silva Santana

Nº 03  1ºE

6 comentários:

  1. Amanda, adorei sua interpretação. Concordo com a sua visão do poema, principalmente quando você fala: "Nessa lira, Gonzaga desvaloriza os bens materiais, que se acabam com o passar dos anos.". Nesse ponto, senti como se você houvesse conseguido entrar na lira.
    Adorei!

    Maria Carolina D'avilla - nº 28
    1º E

    ResponderExcluir
  2. Manda, sua interpretação ficou ótima, bem observado quando você diz "trocaria tudo pra viver uma vida simples com Marília." lindo.

    Luciane A. - 25
    1E

    ResponderExcluir
  3. Eu concordo com a sua análise. A lira nos remete a pensar sobre o amor puro e profundo que o Dirceu sente por Marília. O autor declara à Marília que, apesar de não ter riquezas e bens materiais caros à oferecer, tem um amor que supera todo o materialismo e nunca morrerá.

    Daniella Úrsula - Nº06

    1ºE

    ResponderExcluir
  4. Concordo com você ,conseguiu captar cada detalhe da lira , ficou muito bom .

    Natália C. Frazão

    1ºE Nº30

    ResponderExcluir
  5. Antonomásia
    "minha bela" - Marília

    Amanda Silva - nº 03
    1ºE

    ResponderExcluir
  6. Ótima análise! Você conseguiu ressaltar a real mensagem da lira (pelo menos na minha opinião.). "nesse poema ignora todos os bens e valoriza o conhecimento, mostrando que trocaria tudo para viver uma vida simples com Marília." Perfeito.

    Yan Mateus - N° 40
    1ºE

    ResponderExcluir