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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

Que viva de guardar alheio gado;

De tosco trato, d’ expressões grosseiro,

Dos frios gelos, e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal, e nele assisto;

Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

Das brancas ovelhinhas tiro o leite,

E mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte,

Dos anos inda não está cortado:

Os pastores, que habitam este monte,

Com tal destreza toco a sanfoninha,

Que inveja até me tem o próprio Alceste:

Ao som dela concerto a voz celeste;

Nem canto letra, que não seja minha,

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,

Só apreço lhes dou, gentil Pastora,

Depois que teu afeto me segura,

Que queres do que tenho ser senhora.

É bom, minha Marília, é bom ser dono

De um rebanho, que cubra monte, e prado;

Porém, gentil Pastora, o teu agrado

Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

Os teus olhos espalham luz divina,

A quem a luz do Sol em vão se atreve:

Papoula, ou rosa delicada, e fina,

Te cobre as faces, que são cor de neve.

Os teus cabelos são uns fios d’ouro;

Teu lindo corpo bálsamos vapora.

Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,

Para glória de Amor igual tesouro.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

Leve-me a sementeira muito embora

O rio sobre os campos levantado:

Acabe, acabe a peste matadora,

Sem deixar uma rês, o nédio gado.

Já destes bens, Marília, não preciso:

Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;

Para viver feliz, Marília, basta

Que os olhos movas, e me dês um riso.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!



Irás a divertir-te na floresta,

Sustentada, Marília, no meu braço;

Ali descansarei a quente sesta,

Dormindo um leve sono em teu regaço:

Enquanto a luta jogam os Pastores,

E emparelhados correm nas campinas,

Toucarei teus cabelos de boninas,

Nos troncos gravarei os teus louvores.

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

Depois de nos ferir a mão da morte,

Ou seja neste monte, ou noutra serra,

Nossos corpos terão, terão a sorte

De consumir os dois a mesma terra.

Na campa, rodeada de ciprestes,

Lerão estas palavras os Pastores:

"Quem quiser ser feliz nos seus amores,

Siga os exemplos, que nos deram estes."

Graças, Marília bela,

Graças à minha Estrela!

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Nessa lira o poeta mostra o quanto Marília é importante em sua vida. Ele faz um auto retrato no qual se coloca como pastor , e afirma sua juventude comparando seus dotes artísticos aos outros pastores .O poeta faz comparações angelicais para descrever Marília (identificada como “gentil pastora”), tendo como exemplos os seus olhos de luz divina ,suas faces cobertas por papoila , ou rosa delicada e aos fios de ouro de seus cabelos. Ele deixa bem claro que sem o amor de Marília, de nada valem propriedade, juventude e talento, através disso ele mostra que ela vale mais que riqueza e poder. Marília também assume o papel de “estrela” da tradição medieval, uma imagem a quem o poeta está apaixonado e procura convencer de seu amor. Eu encontrei em um site uma frase muito interessante em relação a esta lira ,em que fala que o poeta aparece como ”senhor” e na medida em que vai revelando seu amor ,vai passando de senhor para “servo”. 


Podemos observar várias características arcádicas na lira, como o bucolismo que busca pelos  valores da natureza, mitologia clássica e o pastoralismo que é a exaltação da natureza e de tudo o que lhe diz respeito. Em várias partes da lira encontramos a valorização dos bens materiais mostrando a natureza como cenário poético .Na segunda estrofe , se mantêm elementos arcádicos(fonte, pastores ,monte ,cajado).

A situação histórica dessa lira não é diferente de todas as outras da primeira parte. O poeta as escreve se baseando em seu romance com Maria Doroteia, em uma fase romântica e feliz de sua vida. O maior objetivo de Gonzaga na lira, era conquistar sua amada que era dona de seu coração e musa de suas palavras. As liras da primeira parte foram escritas na época anterior á prisão do autor e apenas publicadas em 1792 em Lisboa.


Glossário
Alheio: de outras pessoas.
Tosco: rude, rústico.
Dos: pelos.
Casal: sítio, pequena propriedade rural, moradia própria.
Trato: tratamento.
Assisto: resido moro.
Semblante: rosto fisionomia.
Inda: ainda.
Dotes: bens.
Ventura: felicidade.
Apreço: valor.
Segura: garante.




Daniella Úrsula de Macêdo Marques

Nº 06 1ºE

6 comentários:

  1. Nesta lira, pelo que me parece é a que mas apresenta o bucolismo, talvez por ser a primeira, não sei. Sua interpretação foi bastante clara sobre o sentimento e admiração que Tomás tem por sua amada.

    Luciane A.- n 25
    1E

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  2. Dani, eu adorei a sua interpretação. Ela condiz com tudo o que eu interpretei da lira. Contudo, encontrei alguns erros ortográficos que, em alguns momentos, dificultaram um pouco a leitura de sua análise.
    Tirando isso, ficou perfeito. E, também, terei de concordar com a Luciane: essa lira é onde mais detectei o bucolismo.

    Maria Carolina D'avilla - nº 28
    1º E

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  3. Antonomásia
    "Estrela"-Marília
    Daniella Úrsula
    1°E Nº06

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  4. Interpretação e análise perfeitas . Também terei de concordar com as meninas ,quando o assunto é a forte, presença do bucolismo nessa lira.

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  5. Esqueci de colocar o meu nome é número no comentário acima : 1°E Nº30
    Natália C.Frazão .

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  6. O autor denomina o amor dos dois como um exemplo a ser seguido. O amor deles é transcendental, que mesmo depois de mortos, embaixo da mesma terra, estarão juntos. Concordo com sua análise, e assim como você, percebo como ele tentava de todas as formas conquistar sua amada.

    Amanda Silva - nº 03
    1ºE

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