sábado, 31 de agosto de 2013
Parte 3 - Lira V
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas povos mando, e na testa altiva
verdeja a coroa do sagrado louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
Pela ninfa, que jaz vertida em louro,
o grande deus Apolo não delira?
Jove, mudado em touro
e já mudado em velha não suspira?
seguir aos deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
Pertendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha estrela!
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
que o dia da morte feia;
caí do trono, Dircéia,
do trono dos braços teus,
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Ímpio Fado, que não pôde
os doces laços quebrar-me,
por vingança quer levar-me
distante dos olhos teus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Parto, enfim, e vou sem ver-te,
que neste fatal instante
há de ser o teu semblante
mui funesto aos olhos meus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
E crês, Dircéia, que devem
ver meus olhos penduradas
tristes lágrimas salgadas
correrem dos olhos teus?
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
De teus olhos engraçados,
que puderam, piedosos,
de tristes em venturosos
converter os dias meus?
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Desses teus olhos divinos,
que, terno e sossegados,
enchem de flores os prados
enchem de luzes os céus?
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Destes teus olhos, enfim,
que domam tigres valentes,
que nem rígidas serpentes
resistem aos tiros seus?
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Da maneira que seriam
em não ver-te criminosos,
enquanto foram ditosos,
agora seriam réus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Parto, enfim, Dircéia bela,
rasgando os ares cinzentos;
virão nas asas dos ventos
buscar-te os suspiros meus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Talvez, Dircéia adorada,
que os duros fados me neguem
a glória de que eles cheguem
aos ternos ouvidos teus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
Mas se ditosos chegarem,
pois os solto a teu respeito,
dá-lhes abrigo no peito,
junta-os cos suspiros teus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
E quando tornar a ver-te,
ajuntando rosto a rosto,
entre os que dermos de gosto,
restitui-me então os meus.
Ah! não posso, não, não posso
dizer-te, meu bem, adeus!
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Parte 3 - Lira VII
Com teus olhos ditosas as campinas
Do turvo ribeirão em que nascestes;
Deixa, Marília, agora
As já lavradas setas:
Anda afoita a romper os grossos mares,
Anda encher de alegria estranhas terras;
Ah! por ti suspiram
Os meus saudosos lares.
Não corres como Safo sem ventura,
Em seguimento de um cruel ingrato,
Que não cede aos encantos da ternura;
Segues um fino amante,
Que a perder-te morria.
Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó Bela;
Tu já foste no Sul a minha guia,
Ah! deves ser no Norte
Também a minha estrela.
Verás ao Deus Netuno sossegado,
Aplainar c’o tridente as crespas ondas;
Ficar como dormindo o mar salgado;
Verás, verás, d’alheta
Soprar o brando vento;
Mover-se o leme, desrizar-se o linho:
Seguirem os delfins o movimento,
Que leva na carreira
O empavesado pinho.
Verás como o Leão na proa arfando
Converte em branca espuma as negras ondas,
Que atalha, e corta com murmúrio brando;
Verás, verás, Marília,
Da janela dourada,
Que uma comprida estrada representa
A linfa cristalina, que pisada
Pela popa que foge,
Em borbotões rebenta.
Bruto peixe verás de corpo imenso
Tornar ao torto anzol, depois de o terem
Pela rasgada boca ao ar suspenso;
Os pequenos peixinhos
Quais pássaros voarem;
De toninhas verás o mar coalhado,
Ora surgirem, ora mergulharem,
Fingindo ao longe as ondas,
Que forma o vento irado.
Verás que o grande monstro se apresenta,
Um repuxo formando com as águas,
Que ao mar espalha da robusta venta;
Verás, enfim, Marília,
As nuvens levantadas,
Umas de cor azul, ou mais escuras,
Outras de cor-de-rosa, ou prateadas,
Fazerem no horizonte
Mil diversas figuras.
Mal chegares à foz do claro Tejo,
Apenas ele vir o teu semblante,
Dará no leme do baixel um beijo.
Eu lhe direi vaidoso:
"Não trago, não, comigo,
"Nem pedras de valor, nem montes d’ouro;
"Roubei as áureas minas, e consigo
"Trazer para os teus cofres
"Este maior Tesouro."
Esta lira não é nada além de um sonho. Aqui, apesar de não ser perceptível na própria lira, temos um Dirceu distante, triste. Por isso, agora, ele vive e escreve o que imagina. Aqui, é claro o modo como imagina uma vida amorosa perfeita com Marília. A lira se passa num navio, navegando em alto mar para Portugal. Os dois estão na proa, sentindo o vento, vendo golfinhos e pássaros. Estão bem, pois há um mundo perfeito ao redor de ambos: céu azul, nuvens coloridas, sol brilhante, clima agradável, água espirrando no rosto. Depois de chegarem, segundo o que Dirceu imagina, o homem que ver Marília irá se sentir extremamente encantado por sua beleza, e então, Dirceu poderá se vangloriar por ter o amor da mulher mais linda que já foi vista, de beleza mais valiosa que qualquer dinheiro ou joias.
Nesta terceira parte, é comum encontrar liras que mostrem como Tomás Antônio Gonzaga imaginava que poderia ser sua vida ao lado de Maria Doroteia. Chega a ser confuso, pois, como o livro em alguns momentos parece não seguir uma ordem de acontecimentos, chega-se a pensar que aquilo realmente aconteceu. Porém, aqui, não há um uso do pretérito, como na maioria das liras da segunda parte do livro. Há o uso do tempo futuro, como se Tomás ainda acreditasse que tudo aquilo poderia acontecer de acordo com sua imaginação. Esse contexto abrange praticamente toda a terceira parte do livro.
As características do arcadismo voltam a ser fortes. Não há racionalismo - ao contrário disso, vemos um certo bucolismo e carpe diem vindos da imaginação de Tomás Antônio Gonzaga. Obviamente, há a idealização da mulher amada, assim como de todo um romance que poderiam viver juntos. Há também o locus amoenus (lugar agradável), que, nessa lira, seria o navio em viagem a Portugal. Como em todo o livro, há uso de pseudônimos, a objetividade e certo desdém ao dinheiro, principalmente ao fim da lira. E, como sempre, há a presença de seres mitológico e a tentativa de retomar os modelos clássicos Greco-latinos.
Glossário:
Safo - Livre; desencalhado; gasto, usado.
Grilhões - Corrente forte de metal; cordão grosso de ouro; [figurado] laço; prisão (mais usado no plural).
Netuno - Deus dos mares na mitologia romana. Representado por Poseidon na mitologia grega.
Alheta - Ângulo que forma a popa do navio com o costado (quando a popa é de painel).
Desrizar - Desfazer tranças ou nós de cabelos ou de alguma coisa que esteja trançada.
Delfins - [
Empavesado - Embandeirar (um navio). Defender (o navio) com paveses.
Linfa - [Linguagem poética] Água.
Borbotões - Bolhas de água, golfada, jorro, lufada.
Baixel - Pequeno navio ou barco.
Maria Carolina D'avilla - nº 28
1º E
Maria Carolina D'avilla - nº 28
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Amanda Silva Santana - Nº 03
1ºE
Parte 2 - Lira XV
Fui honrado Pastor da tua aldeia;
Vestia finas lãs, e tinha sempre
A minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal, e o manso gado,
Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.
Para ter que te dar, é que eu queria
De mor rebanho ainda ser o dono;
Prezava o teu semblante, os teus cabelos
Ainda muito mais que um grande Trono.
Agora que te oferte já não vejo
Além de um puro amor, de um são desejo.
Se o rio levantado me causava,
Levando a sementeira, prejuízo,
Eu alegre ficava apenas via
Na tua breve boca um ar de riso.
Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
De ver-te aos menos compassivo o rosto.
Propunha-me dormir no teu regaço
As quentes horas da comprida sesta,
Escrever teus louvores nos olmeiros,
Toucar-te de papoulas na floresta.
Julgou o justo Céu, que não convinha
Que a tanto grau subisse a glória minha.
Ah! minha Bela, se a Fortuna volta,
Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo;
Por essas brancas mãos, por essas faces
Te juro renascer um homem novo;
Romper a nuvem, que os meus olhos cerra,
Amar no Céu a Jove, e a ti na terra.
Fiadas comprarei as ovelhinhas,
Que pagarei dos poucos do meu ganho;
E dentro em pouco tempo nos veremos
Senhores outra vez de um bom rebanho.
Para o contágio lhe não dar, sobeja
Que as afague Marília, ou só que as veja.
Senão tivermos lãs, e peles finas,
Podem mui bem cobrir as carnes nossas
As peles dos cordeiros mal curtidas,
E os panos feitos com as lãs mais grossas.
Mas ao menos será o teu vestido
Por mãos de amor, por minhas mão cosido.
Nós iremos pescar na quente sesta
Com canas, e com cestos os peixinhos:
Nós iremos caçar nas manhãs frias
Com a vara envisgada os passarinhos.
Para nos divertir faremos quanto
Reputa o varão sábio, honesto e santo.
Nas noites de serão nos sentaremos
C'os filhos, se os tivermos, à fogueira;
Entre as falsas histórias, que contares,
Lhes contarás a minha verdadeira.
Pasmados te ouvirão; eu entretanto
Ainda o rosto banharei de pranto.
Quando passarmos juntos pela rua,
Nos mostrarão c'o dedo os mais Pastores;
Dizendo uns para os outros: "Olha os nosso
"Exemplos da desgraça, e são amores".
Contentes viveremos desta sorte,
Até que chegue a um dos dois a morte.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Lira XXXII Parte II
E na rocha em flor rebenta,
Grossa nau, que não tem leme,
Em vão sustentar-se intenta;
Até que naufraga, e corre
À discrição da tormenta.
Quem não tem uma beleza,
Em que ponha o seu cuidado;
Se o Céu se cobre de nuvens,
E se assopra o vento irado,
Não tem forças que resistam
Ao impulso do seu fado.
Nesta sombria masmorra,
Aonde, Marília, vivo,
Encosto na mão o rosto,
Ah! que imagens tão funestas
Me finge o pesar ativo.
Parece que vejo a honra,
Marília, toda enlutada;
A face de um pai rugosa,
Num mar de pranto banhada;
Os amigos macilentos,
E a família consternada.
Quero voltar aos meus olhos
Para outro diverso lado;
Vejo numa grande praça
Um teatro levantado;
Vejo as cruzes, vejo os potros,
Vejo o alfanje afiado.
Um frio suor me cobre,
Laxam-se os membros, suspiro;
Busco alívio às minhas ânsias,
Não o descubro, deliro.
Já , meu Bem, já me parece
Que nas mãos da morte expiro.
Vem-me então ao pensamento
A tua testa nevada,
Os teus meigos, vivos olhos,
A tua face rosada,
Os teus dentes cristalinos,
A tua boca engraçada.
Qual, Marília, a estrela d'alva,
Que a negra noite afugenta;
Qual o Sol, que a névoa espalha
Apenas a terra aquenta;
Ou qual Íris, que o Céu limpa,
Quando se vê na tormenta:
Assim, Marília, desterro
Triste ilusão, e demência;
Faz de novo o seu ofício
A razão, e a prudência;
E firmo esperanças doces
Sobre a cândida inocência.
Restauro as forças perdidas,
Sobe a viva cor ao rosto,
Gira o sangue pela veia,
E bate o pulso composto:
Vê, Marília, o quanto pode
Contra meus males teu rosto
Glossário : Vasto : Que tem grande extensão; muito amplo.
Encapela: Levantar, encrespar.
Rebenta: arrebenta; arrebentas; arrebente; estoira; estoiras; estoire; estoura; estouras; estoure; explode; explodes.
Nau: Antiga embarcação a vela, de alto bordo, com três mastros e numerosas bocas de fogo.
Intenta: pretenda; pretende; pretendes.
Fado: Fadário, destino, sorte.
Nocivo, fatal.
Entulada: Que está de luto.
Macilento: Pálido, descorado; magro, descarnado: a doença deixou-lhe um aspecto macilento.
Consternado: Que sofreu consternação; que se encontra triste ou desolado.
Desterro: Ato ou efeito de desterrar; expulsão da pátria; exílio, banimento; deportação.
Parte 2 - Lira VII
Lira VII
Meu prezado Glauceste,
Se fazes o conceito,
Que, bem que réu, abrigo
A cândida virtude no meu peito;
Se julgas, digo, que mereço ainda
Da tua mão socorro,
Ah! vem dar-me agora,
Agora sim que morro.
Não quero, que montado
No Pégaso fogoso,
Venhas com dura lança
Ao monstro infame traspassar raivoso.
Deixa que viva a pérfida calúnia,
E forje o meu tormento:
Com menos, meu Glauceste,
Com menos me contento.
Toma a lira dourada,
E toca um pouco nela:
Levanta a voz celeste
Em parte que te escute a minha Bela;
Enche todo o contorno de alegria;
Não sofras, que o desgosto
Afogue em pranto amargo
O seu divino rosto.
Eu sei, eu sei, Glauceste,
Que um bom cantor havia,
Que os brutos amansava;
Que os troncos, e os penedos atraía.
De outro destro Cantor também afirma
A sábia antiguidade,
Que as muralhas erguera
De uma grande Cidade.
Orfeu as cordas fere;
O som delgado, e terno
Ao Rei Plutão abranda,
E o deixa, que penetre o fundo Averno.
Ah! tu a nenhum cedes, meu Glauceste,
Na lira, e mais no canto;
Podes fazer prodígios,
Obrar ou mais, ou tanto.
Levanta pois as vozes:
Que mais, que mais esperas?
Consola um peito aflito;
Que é menos ainda, que domar as feras.
Com isto me darás no meu tormento
Um doce lenitivo;
Que enquanto a Bela vive,
Também, Glauceste, vivo.
E com voz importuna
Me diz que mova o passo;
Que ente no grande Templo, em que se encerra
Quanto o destino manda,
Que ela obre sobre a terra.
Que coisas portentosas nele encontro!
Eu vejo a pobre fundação de Roma;
Vejo-a queimar Cartago;
Vejo que as gentes doma;
E vejo o seu estrago.
Lá floresce o poder do Assírio Povo;
Aqui os Medos crescem,
E os perde um braço novo.
Então me diz a Deusa: "E que pretendes?
"Todas estas medalhas ver agora?
"Ah! não, não sejas louco!
"Espaço de anos fora
"Para isso ainda pouco;
"Deixa estranhos sucessos, vem comigo;
"Verás quanto inda deve
"Acontecer contigo."
Levou-me aonde estava a minha história,
Que toda me explicou com modo, e arte.
"Tirei-te libras de ouro",
Me diz, "e quero dar-te
"Todo aquele tesouro.
"Não suspira por bens um peito nobre?
Severo lhe respondo,
"Vivo afeito a ser pobre."
Aqui me enruga a Deusa irada a testa,
E fica sem falar um breve espaço.
"Alegra, alegra o rosto",
Prossegue, "ali te faço
"Restituir o posto."
Respondo em ar de mofa, e tom sereno:
"Conheço-te, Fortuna,
"Posso morrer pequeno."
"Aqui te dou, me diz, a tua amada."
Então me banho todo de alegria.
"Cuidei, me torna a cega,
"Que essa alma não queria
"Nem esta mesma entrega."
"É esse o bem, respondo, que me move,
"Mas este bem é santo,
"Vem só da mão de Jove."
Queria mais falar; eu insofrido
Desta maneira rompo os seus acentos:
"Basta, Fortuna, basta,
"Estes breves momentos
"Lá noutras coisas gasta;
"Da minha sorte nada mais contemplo."
E, chamando Marília,
Suspiro, e deixo o Templo.
Nesta lira há algo comum em algumas das liras dessa segunda parte: um diálogo. O poema em si é uma carta, um relato que Dirceu (Tomás Antônio Gonzaga) faz a seu amigo Glauceste (Cláudio Manuel da Costa). Ele se lamenta da dor que sente, pois está preso e longe de sua amada, o que acontece em toda a segunda parte do livro. Há uma depressão infindável, algo tão profundo que o leitor quase pode se sentir como Dirceu. Durante o diálogo com a Fortuna, ele deixa muito claro que ainda vive, não se rende ao tempo e à morte, porque seu amor por Marília é maior do que qualquer coisa. No decorrer na lira, podemos acompanhar a trilha relatada por Dirceu rumo ao templo onde há o encontro com a deusa. Lá, ele se depara com sua própria história e tem a oportunidade de saber o que mais pode acontecer a ele. Claro, tudo o que aconteceé fruto de sua imaginação, o que, a meu ver, revela que ele estava ficando perturbado enquanto preso. Talvez, fosse apenas a dor da distância sendo forte demais.
As características do arcadismo, apesar de não serem as mesmas, ainda são presentes, como a simplicidade da linguagem (inutilia truncat). Há o uso da razão, mas, ao mesmo tempo, uma leve invenção de fatos (trata-se do diálogo). É clara a presença das figuras mitológicas e do modelo clássico da antiguidade Greco-latina, além dos usuais pseudônimos e da objetividade. Porém, não há a alegria e tranquilidade do carpe diem ou pastoralismo. Todas as características presentes são associadas a coisas negativas.
Como já dito, na segunda parte do livro, Dirceu está preso e longe de sua amada. A partir deste ponto, não há mais alegria em seus poemas, não há mais a celebração da beleza de sua amada. Há apenas a dor, a distância e a saudade. Graças a isso, a leveza e tranquilidade existentes na primeira parte do livro desaparecem. Agora, tudo está envolto numa atmosfera escura e pesada, pois Dirceu está cansado, triste e longe de sua casa e de sua amada. Quem mais poderia viver assim?
Glossário:
Glauceste – Cláudio Manuel da Costa foi o responsável pela introdução do arcadismo no Brasil. Era muito amigo de Tomás Antônio Gonzaga e seu pseudônimo eraGlauceste Satúrnio.
Pégaso – Cavalo alado da mitologia.
Pérfida – Que falta à fé jurada; infiel; traidor.
Penedos – Pedra grande; rochedo; penhasco.
Plutão – Deus da morte e do submundo na mitologia romana, equivalente a Hades na mitologia grega.
Assírio – Relativo à Assíria, antigo reino do Oriente Médio.
Averno – A entrada para o inferno na mitologia, ou simplesmente “inferno” em linguagem poética.
Jove – Júpiter, deus dos deuses na mitologia romana, equivalente a Zeus na mitologia grega.
Maria Carolina D’avilla – nº 28
1º E